Crônicas

A Bomba

São tantas as guerras que a gente pensa que é assim mesmo…
Que o ser humano é bélico por natureza… Pensando bem, o ser
humano se parece com uma bomba…

A bomba está prestes a explodir!

Dentro do coração, do pensamento, num aceno, num senão.

A bomba está prestes a explodir qualquer nação!

Atenta e experiente na ganância dos seres, ela está prestes a explodir uma rua, uma vila, uma cidade inteira!

Na televisão, vozes inflamadas pedem a bomba!

Nos discursos raivosos das redes, vozes sem razão pedem mais bombas!

A bomba esteve, está e estará na boca das gentes porque entendeu como funciona a coisa: divisão, ressentimento, validação, inveja e ambição a alimentam!

Ao longo do tempo, a bomba está sendo muito bem alimentada!

A bomba aprendeu que uma parte das criaturas humanas deseja a destruição, por isso, ela está prestes a explodir.

Numa briga de trânsito, ela explode.

Numa esquina incerta, ela explode.

Numa discussão em família, ela explode!

Na briga entre torcidas de futebol, ela explode!

Na discussão política, ela explode!

Nos discursos de ódio, ela explode!

A bomba explode em todos os lugares e em várias situações para explodir de novo e de novo e de novo…

A bomba será a nossa essência? Somos inevitavelmente explosivos?

À espera de um simples deslize, a bomba aguarda a próxima explosão e nos aprisiona num ciclo interminável de poeira, cinzas e lamentação!

A bomba está prestes a explodir!

Em todas as guerras, sem exceção, a bomba explode… Seus fragmentos se tornam memórias ambulantes daqueles que sobrevivem…

Campista Cabral

Campista Cabral, leitor assíduo dos portugueses Camões e Pessoa, do poetinha Vinícius, herdou deles o gosto pelo soneto. A condensação dos temas do cotidiano, assim como a reflexão sobre o fazer poético, parece procurar a sua existência empírica ou, nas palavras do poeta, um rosto perfeito, na estrutura do soneto. Admirador e também leitor obsessivo de Umberto Eco, Ítalo Calvino, José Cardoso Pires, Lobo Antunes, do mestre Machado de Assis e do moçambicano Mia Couto, retira dessas leituras o gosto pela metalinguagem, o prazer em trabalhar um espaço de discussão da criação literária em sua prosa. A palavra, a todo instante, é objeto base dos contos e das crônicas. A memória, o dia-a-dia, o amor, as sensações do mundo e os sentidos e significados da vida estão presos nos mistérios e assombros da palavra.

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